sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

"Ela estava na minha classe no primeiro ano.

Era legal. Amigável até mesmo com alunos esquisitos. Popular, mas não a ponto de deixar os demais enciumado, e bonita de um jeito que facilmente passaria despercebida. Poucas semanas após começar o ensino médio, pagou o preço da popularidade. Arrumou um namorado. Chad Rivington tinha quase o dobro da sua altura — um tamanho intimidador até ser visto se enfiando em um fusca azul-bebê enferrujado, caindo aos pedaços que ele amava mesmo assim. Ele era um veterano com notas decentes, bons dentes e ocupava uma posição do time de basquete da escola. Em outras palavras, era um tesouro para qualquer garota, de qualquer ano, especialmente para uma caloura. Eles se conheceram na enfermaria — ela com enxaqueca, ele alardeando um enorme corte de papel na esperança de fugir da aula de espanhol II. No fim de semana, já eram um casal. No fim do mês, eram o casal. É claro que tinham intimidade. Mas ela ia com calma, preferindo trocas beijinhos doces durante caminhadas sobre as pilhas de folhas secas de outono em vez de partidas de luta livre quase sem roupa no apertado banco de trás do carro de Chad. No aniversário de dois meses de namoro, Chad pediu que ela cabulasse a aula de álgebra para encontrá-la no vestiário masculino para uma ousadia divertida e excitante. Embora nenhum dos dois ainda tivesse dito "Eu te amo", ela sentia isso toda vez que Chad entrelaçava seus dedos aos dela. Uma semana antes, depois de tomar suas primeiras três cervejas em uma festa, ela quase deixou escapar. Mas decidiu guardar para uma ocasião mais especial: o aniversário de dois meses. Depois de olhar por trás dos ombros, a garota entrou de fininho no vestiário masculino e foi na ponta dos pés até a última fileira de armários. Chad a cumprimentou com um sorriso. Um pouco depois, antes mesmo de dizerem "oi", já estavam se beijando. Parecia que o uniforme escolar dela tinha sido feito sob media para um encontro apressado como aquele.  As mãos dele deslizavam por ela toda. Todinha. E pela primeira vez no relacionamento deles, ela não se preocupou com o local que as mãos percorriam. Era romântico e sexy, e tudo dentro dela estava derretendo. Chad era mais experiente nessas coisas, e ela finalmente permitiu-se curtir o momento. Eles teriam ido até o fim se estivessem no quarto de Chad, ou até mesmo em seu carro. Mas estavam no vestiário fedorento e o fim da aula de ginástica estava se aproximando. E a cada passo ouvido, assobio ou até descoberta invadia a névoa de insensatez da garota. — Não posso — disse subitamente. — Não aqui. Não agora. Chad tentou convencê-la com palavras, com beijos. Mas agora ela não estava mais se derretendo por dentro, pelo contrário. Afastou-se da boca de Chad e disse que era melhor voltar pra aula. O rapaz ficou muito desapontado — uma postura familiar em seus últimos encontros, só que um pouco mais enfática dessa vez. Ele implorou que ela ficasse. Afinal de contas, ela mal havia tocado nele e ele estava muito excitado. Nada mais justo do que terminar o que haviam começado, certo? Ela insistiu que tinha de voltar à aula de álgebra. Suavemente. Desculpando-se. E quando percebeu como Chad continuava chateado, inclinou-se para beijá-lo. Um beijinho na ponta do nariz, pra deixar tudo bem. Ela sentiu três palavras querendo sair de sua boca, prontas para serem ditas. Mas Chad virou o rosto. A garota se sentiu mal ao voltar apressada para a aula. Sentiu-se ainda pior depois dela, quando viu alguns rapazes tirando sarro de Chad perto da árvore dos fumantes. Ele foi para o carro sem nem mesmo acenar para ela com a cabeça. A garota não sabia que a inabilidade de Chad transar com uma caloura tinha se tornado a piada do momento. Uma responsabilidade social. Até mesmo o próprio Chad brincou sobre isso durante semanas, pensando que seus amigos iam dar um tempo se ele participasse da brincadeira. Então, ele reclamava por "ficar na mão" após levá-la de carro para casa, ou imitava estar transando com a porta do armário, zombando da própria frustração depois que a garota o abraçava de manhã ou enquanto estavam no pátio. Coisas assim. Mas a participação de Chad apenas incentivava os comentários dos demais. A provocação ficava cada vez menos engraçada e cada vez mais pessoal. Foi um dos amigos de Chad que sugeriu a pegação no vestiário. "Use o aniversário", disse o cara. "Não tem como dar errado". Para Chad, todo mundo na escola estaria com os olhos grudados no relógio durante a quinta aula. Todos esperavam que ele conseguisse. E quando apareceu decepcionado, inventou uma desculpa que o isentava totalmente de culpa. Quando a garota chegou na escola no dia seguinte, os sussurros a atingiam como flechas envenenadas em suas costas. Garotos que tinham sido gentis com ela em festa e veteranas que tinham acabado de aceitá-la no grupo agora pareciam distantes e reticentes. até mesmo alguns de seus próprios colegas, aquele que ela havia ajudado a adentrar no exclusivo mundo escolar superior, de súbito passaram a ignorá-la. Ela não conseguia entender. Pelo menos não até ver Chad, que olhou na outra direção, enfatizando sua culpa, para que não tivesse de falar com ela. Em seguida, por onde ela passava, todos começaram a funga. Sempre que ela ia para qualquer lugar, alguém fungava. Não parou para pensar no assunto. O tempo frio estava no ápice. Mas a ação ficava se repetindo. Funga. Funga. Funga. Onde quer que ela estivesse. Ela só percebeu o que estava acontecendo na hora do almoço, quando um dos amigos de Chad foi até o quadro branco e escreveu o nome dela ao lado da entrada de iscas de peixe. "Ela me deu nojo", imaginava Chad dizendo. "Quase morri de rir, ela fedia tanto." Tão idiota. Tão impensado. Tão mentiroso. Mas foi a gota d'água. Chega. Era o fim. Para ela era o fim. A onda inicial de provocação foi diminuindo depois de alguns meses, como qualquer outra frase ou slogan de efeito. Chad nunca se desculpou. Talvez tivesse limpado a consciência admitindo para alguém que tinha apenas feito uma piada ridícula, mas ele não disse nada à garota. E outra pessoa passou a ser alvo das fofocas quando uma novata supostamente participou de um ménage à tróis no chuveiro da casa de seus pais com dois colegas da classe de Chad. Mas para a garota aquilo provocou mudanças. Em forma de andar, na frequência com que levantava a mão na classe, no que ousava colocar em seu prato no almoço. Ela nunca mais foi a mesma novamente. Não mesmo. Era a isca de peixe. É por isso que confiar em garotos era igual beber e dirigir. Claro, alguns correm o risco. O fato de se tomar uma ou duas cervejas nunca parece perigoso no começo."


 — Não sou este tipo de garota,  Siobhan Vivian.

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